Filhos de Prometeu


O ano é de 2019. A engenharia genética evoluiu de tal modo que fomos capazes de criar novas criaturas, os Replicantes, seres mais ágeis, fortes e de certo modo, mais inteligentes que seus criadores. Mas não demorou muito para que eles se revoltassem contra estes, e passassem a ser caçados pelos Blade Runners. Nesse contexto, vive Deckard (vivido por Harrison Ford), ex-Blade Runner que é incumbido de caçar seis Replicantes que fugiram para a Terra. A tarefa não é simples. Os limites entre vilões e heróis saõ muito tênues, e não se sabe até que ponto um ser humano é realmente humano e um Replicante apenas mais uma criação.

A sinopse acima é do filme Blade Runner, Cult movie da ficção cientifica dirigido pelo cineasta Ridley Scott e baseado no livro do Philip K. Dick. Na época que foi lançado, em 1982, sua trama não parecia tão surreal quanto soa hoje, em pleno ano de 2011. Entretanto, se deixarmos de lado certos detalhes, podemos tirar valiosas lições do filme. Ainda não vivemos amontoados em arranha-céus gigantescos e nossos carros não voam, mas nossa capacidade de manipular o DNA de seres vivos é bem avançada, e em breve seremos capazes de feitos considerados impossíveis há cinqüenta anos atrás. Mas assim como na obra de Scott, os limites entre o certo e o errado não são tão bem delimitados como deveriam.

O exemplo mais recente que temos é o de Roger Abdelmassih, médico dono de uma clínica de reprodução assistida em São Paulo. Ele foi condenado a 278 anos de prisão pelos mais diferentes crimes, desde estupro de pacientes, uso de técnicas consideradas ilegais pela Legislação brasileira, a venda de óvulos e suborno de pacientes. Abdelmassih, entretanto, se defende alegando que muitas das técnicas utilizadas na clínica são permitidas em outros países, como a escolha do sexo dos bebês. Com isso, entramos em um impasse: como controlar algo que pode ser certo ou errado dependendo de cada nação?

Outro problema: todos esses avanços supostamente seriam usados “em nome da ciência”, mas quem nos garante que os fins não serão outros?Uma  pele sintética que pode recuperar pacientes com queimaduras graves pode ser comercializada para aqueles que por capricho próprio, não desejam envelhecer. Além disso, é muito comum que descobertas cientificas que visam o bem-estar do ser humano sejam adaptadas para o uso de soldados em guerras e combates.Esse foi o caso do avião: o sentimento de culpa de seu criador, o brasileiro Santos Dumont, foi tão grande que o levou a cometer suicídio.

Tudo isso talvez seja um exemplo da falta de maturidade do ser humano para com o que cria. Inventamos sem medir as conseqüências. Se algo foge do controle, não somos capazes de admitir nosso erro e usamos métodos violentos para reprimi-lo, afetando a vida de muitos. Chamamos isso de evolução, mas de certa forma é como se voltássemos a engatinhar.

Um dos exemplos mais atuais dessa situação vem do séc. XIX: o livro Frankenstein, da britânica Mary Shelley. Também chamado de “O Prometeu Moderno”(uma referência ao personagem da mitologia grega que criou os seres humanos e lhes deu o fogo dos deuses) , o livro conta a história de Victor Frankenstein, jovem estudante que constrói um novo ser humano a partir de cadáveres. O resultado, porem, não sai como desejado e Victor literalmente abandona seu projeto. Mas a criatura começa uma verdadeira caçada atrás de seu criador, espalhando morte e destruição por onde passa.

A maioria das pessoas se confunde e pensa que o nome do ser criado é Frankenstein, além de pensarem nele como um verdadeiro monstro sanguinário. Mas quem ler a obra vai perceber que tanto criatura como criador não passam de crianças imaturas, sendo que uma está atrás de seu progenitor e outra não consegue arcar com as conseqüências de seus atos.

É óbvio a engenharia genética nos promete soluções fantásticas para diversos problemas, mas vale lembrar que nem tudo é perfeito. Em Blade Runner, os Replicantes vivem apenas quatro anos humanos e não são capazes de demonstrar suas emoções de forma genuína. Esses fatores, entre outros, é o que os leva a revolta, e conseqüentemente a sua caçada. O progresso é inevitável, mas os problemas por ele acarretados podem ser minimizados. Nunca podemos esquecer as questões sociais e humanas envolvidas nisso. Devemos usar nosso bom senso e humanidade. No caso do personagem de Harrison Ford, essa humanidade é representada na forma de algo simples: seu amor pela Replicante Rachel.

3 pensamentos sobre “Filhos de Prometeu

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